O anjo


O ANJO DO SENHOR ACAMPA-SE AO REDOR DAQUELES QUE O TEMEM, PARA OS LIVRAR DO MAL

Eu adorava pescar com papai.
Na verdade, foi ele que me ensinou a pescar. 
Eu ainda tinha seis anos, quando fiz com ele a primeira pescaria. 
Lembro-me como se fosse hoje, foi no Mutange, na Lagoa Mundaú. Precisamos passar por um trecho de mangue, num acesso à lagoa, onde hoje se encontra instalada a empresa Brasken. Quando vi a lama, fiquei assustado e comecei a chorar. Papai entregou os apetrechos a um outro filho e me colocou na "cacunda" e atravessou aquele mangue. Reclamou bastante, mas eu achei aquilo muito legal.
Quando ele já estava com quase oitenta anos, fomos em uma outra pescaria, dessa vez foi na Barra Nova, em um local que hoje está muito diferente, por conta das variações de marés, também por ser região de mangue.
Deixamos o carro um pouco afastado e descemos para a faixa de areia, por onde seguimos em direção norte até o pesqueiro já experimentado antes. Silas seguiu na frente e eu fiquei atrás com papai que já andava devagar. Eu andava alguns metros e olhava para trás para ver se estava tudo bem com ele. Quando ele se aproximava de mim, eu retomava a caminhada, observando a maré. O verdadeiro pescador conhece pelo movimento e pela cor da água que peixe vai correr. Quase sempre a gente acerta.
Depois de percorrida uma certa distância, havia um local em que a faixa de areia dava uma parada e era preciso voltar para o mato, para continuar a jornada. Quando subia a rampa que dava acesso à trilha, senti-me impulsionado a parar abruptamente. A impressão era como se alguém tivesse colocado uma mão espalmada em meu peito, me fazendo parar. Tive uma sensação estranha naquele momento. Imediatamente me veio à mente um pensamento: "será que aconteceu alguma coisa com papai?" Voltei um pouco e o avistei subindo a trilha. Perguntei-lhe: "Está tudo bem? Senti alguma coisa estranha". Ele respondeu: "Comigo tá tudo bem, pode seguir adiante". Voltei-me para a trilha e ao chegar exatamente no local em que parara (ou fui parado) antes, vi parte da traseira de uma cobra que, pela espessura, deveria ser enorme. Dei, de susto, um salto para trás, gritando, "papai, uma cobra!...". Ela se embrenhou por entre os arbustos e grama, deixando a trilha livre. 
Continuamos a caminhada, eu meio assustado e agora mais junto do
velho. Disse-lhe que sentira como se "alguém" me houvesse parado no caminho. Papai docemente me disse algo que jamais esquecerei: "Meu filho, sabe quem foi que lhe parou? Foi um anjo de Deus. Ele anda ao nosso redor nos protegendo de todo o mal".
Senti uma paz profunda, apesar de ainda estar tremendo. Agradeci a Deus pelo livramento. Chegamos ao pesqueiro e começamos os trabalhos com Silas que já estava lá.


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