Saudades do meu avô
SAUDADES DO MEU AVÔ
Tinha apenas 7 anos quando meu avô materno faleceu.
Vovô Manuel Miguel era um caboclo autêntico das Alagoas. Um
homem trabalhador, simples, dedicado à família e de muito bom humor. Conheço
histórias incríveis envolvendo seu nome, algumas já transmitidas aos meus
filhos, que já sabem da obrigação de levá-las adiante.
Vovô, antes de se converter ao Evangelho, era um cantador de coco-de-roda. Era
poeta também. Lembro-me de algumas oportunidades em que sentávamos (eu e outros
meninos) ao redor de
sua cadeira de balanço, em sua casa lá na Ladeira do Calmon, em Bebedouro, para
ouvir suas cantigas. Foi de seus lábios que ouvi pela primeira vez a
"Peleja do Cego Aderaldo e o Zé Pretinho":
"Apreciem meus leitores
Uma forte discussão
Que tive com Zé Pretinho
Um cantador do Sertão
O qual no tanger do verso
Vencia qualquer questão
Um dia determinei
A sair do Quixadá
Uma das belas cidades
Do Estado Ceará
Fui até o Piauí
Ver os cantores de lá..."
Vovô sabia "de cor e salteado" todos os versos da cantoria. Além de recitar, fazia gestos adequados para as rimas, sobretudo aquelas mais picantes:
"P - Esse cego bruto hoje
Apanha, que fica roxo!
Cara de pão de cruzado,
Testa de carneiro mocho —
Cego, tu és o bichinho,
Que comendo vira o cocho!
(...)
C - Esse negro foi escravo,
Por isso é tão positivo!
Quer ser, na sala de branco,
Exagerado e altivo —
Negro da canela seca
Todo ele foi cativo!
P - Eu te dou uma surra
De cipó de urtiga,
Te furo a barriga,
Mais tarde tu urra!
Hoje, o cego esturra,
Pedindo socorro —
Sai dizendo: — Eu morro!
Meu Deus, que fadiga!
Por uma intriga,
Eu de medo corro!
C - Se eu der um tapa
No negro de fama,
Ele come lama,
Dizendo que é papa!
Eu rompo-lhe o mapa,
Lhe rompo de espora;
O negro hoje chora,
Com febre e com íngua
Eu deixo-lhe a língua
Com um palmo de fora!"
Eram atribuídos a ele a autoria de alguns versos de coco. Neles podia se ver o retrato de nossa sociedade alagoana:
"Ta decidido, neste ano ninguém veste
Já chegou o mês de festa
Chega já mês de janeiro
A minha usina faz açúcar de fulô
Embarco no meu vapor
E vou vender no estrangeiro"
Saudades do meu avô.
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